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Subsídios para entender o Islam (e as bases de sua diplomacia) I


 

HEITOR DE PAOLA

Um dos efeitos culturais mais devastadores dos escritos de Marx foi marcar indelevelmente a historiografia ocidental com a fácil, mas frágil fórmula mágica do ‘interesse econômico’ para tudo explicar sobre as relações entre as nações e os grupos humanos. Acredito que os últimos ocidentais que entenderam realmente o Islam foram os Cruzados. Isto porque também possuíam uma visão de mundo religiosa e unitária: o Cristianismo.

Habituados a raciocinar em termos de poderes estatais, militares, econômicos e burocráticos, os estrategistas do Ocidente perdem freqüentemente de vista a unidade profunda do projeto islâmico ao longo do tempo, nublada, a seus olhos, por divergências momentâneas de interesses nacionais que, para eles, constituem a única realidade efetiva. E nisso refiro-me aos estrategistas das grandes potências, não a seus macaqueadores de segunda mão que hoje constituem a “zé-lite” da diplomacia luliana. Estes não têm sequer a noção de que exista, para além dos lances do momento, um projeto islâmico de longo prazo…
Olavo de Carvalho

Ao que me consta fui o primeiro a perceber que a diplomacia ‘luliana’ não é burra nem cometeu uma gafe ao apoiar o Irã. Poucos dias depois verifiquei que a imprensa estrangeira já percebera o interesse do Brasil em seu próprio programa nuclear, aproveitando-se dos sinais de fraqueza da Casa Branca, devido à política de apaziguamento da ‘Doutrina Obama’ para a Estratégia Nacional de Segurança. Só a mídia brasileira, confirmando sua proverbial indigência, continua vociferando sobre a ‘vergonha que Lula nos fez passar’. Hoje, até Merval Pereira, admite que o diabo pode ser mais feio do que se pinta. Mas isto é outra história.

O texto em epígrafe foi extraído do artigo Diplomacia de Sonâmbulos onde Olavo aponta para um nível muito mais profundo de discussão:

‘Pergunto-me se alguém, no nosso governo, tem alguma compreensão do pano-de-fundo religioso, místico e esotérico das manobras do presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad. A resposta é evidentemente “Não”.’ Para nossos diplomatas – e de resto, para a diplomacia ocidental como um todo – a religião não passa de ‘um adorno – ou disfarce publicitário’.

Um dos efeitos culturais mais devastadores dos escritos de Marx foi marcar indelevelmente a historiografia ocidental com a fácil, mas frágil fórmula mágica do ‘interesse econômico’ para tudo explicar sobre as relações entre as nações e os grupos humanos. A política, como conseqüência das decisões ‘imperialistas’, assume o segundo lugar. Raymond Aron ([1]) faz uma profunda crítica e estuda várias outras causas para as guerras. Nem mesmo os comunistas acreditam mais nas sandices do ‘materialismo histórico’. Mas a burritzia ocidental continua apregoando os fatores econômicos e políticos, principalmente numa região como o Oriente Médio, um deserto descansando sobre um mar de petróleo.

Mas não é assim que pensam os habitantes da região, como diz Olavo:

O único lugar do planeta ([2]) onde a consciência do poder da religião como força modeladora da História está viva não só entre os intelectuais como até entre a população em geral, é o Islam. Por isso é que milhões e milhões de muçulmanos têm um senso de participação consciente em planos estratégicos de longuíssima escala – em escala de séculos – para a instauração do Império Islâmico Mundial. ‘ (As maiúsculas são minhas. Ver razão para isto na secção Ummah adiante).

Ibn Khaldûn, ([3]) em sua obra Kitâb al-Ibar.Al Muqaddimah – An Introduction to History (Princeton University Press, 2005), estudou na história do Islam a autoridade real e as dinastias e depois de analisar vários autores que o antecederam, assim se expressa:

‘Chegamos ao conhecimento destas coisas com a ajuda de Deus e sem instruções de Aristóteles ou os ensinamentos dos Môbedân ([4]). (…). Nós, de outro lado, fomos inspirados por Deus’ ([5]). Num dos estudos sobre as dinastias e a autoridade real, diz: ‘Dinastias de grande poder e autoridade real absoluta têm suas origens na religião baseada no respeito às profecias ou numa propaganda verídica. A autoridade resulta da superioridade e esta do sentimento de grupo. Somente com a ajuda de Deus em estabelecer Sua religião é que os desejos individuais se aproximam (…) e seus corações se unem. O segredo é que, quando os corações sucumbem aos falsos desejos e se inclinam para o mundo, surgem grandes diferenças e ciúme mútuo. Quando eles se voltam para a verdade e rejeitam o mundo e tudo que seja falso e se dirigem a Deus, eles se tornam num só em sua visão de mundo. Desaparece o ciúme. A mútua cooperação e apoio florescem. Como resultado, o Estado se amplia e a dinastia cresce…’ ([6]). (P. 125-6, negritos meus)

E entramos assim no âmago da visão de mundo do Islam e, conseqüentemente, na base de sua diplomacia totalmente desconhecida por seus pares ocidentais. Os últimos podem ter estudado a fundo os grandes tratadistas do Ocidente, mas este conhecimento não lhes serve para grande coisa. Pelo contrário, ao projetarem esses conhecimentos sobre o Islam ficam impedidos de conhecer como seus líderes pensam e vêem o mundo. A primeira dificuldade é derivada de um falso conceito geográfico, com graves conseqüências geopolíticas: como o Islam éaparentemente dividido em vários ‘países’ – assim como o Ocidente – não se dão conta de que por trás desta aparência existe aquela unidade de visão de mundo apontada por ibn Khaldun. Mesmo sabendo que as divisões territoriais do Oriente Médio foram traçadas arbitrariamente em Londres e Paris, ainda as enxergam como unidades nacionais zelosas de seu território e são incapazes de entender como são facilmente manobrados por falsas divisões através das quais os dirigentes os exploram para obter vantagens para o Islam. Iraque, Síria e Jordânia não são nações do mesmo sentido, extensão e profundidade que Estados Unidos, França e Alemanha. Entre os primeiros há duas séries de unidades: étnica – são todos árabes – e, mais forte ainda, religiosa – o Islam é a única religião. Constituem, portanto, uma única grande Nação Islâmica da qual as divisões geopolíticas podem ser chamadas com alguma licença de linguagem, de províncias. Pode-se dizer o mesmo, com algumas restrições, dos países islâmicos não-árabes, Irã, Turquia, Paquistão, Afeganistão, Indonésia, Argélia, Egito, Tunísia e demais países africanos que professam o Islam.

Outra divergência através da qual os ocidentais apostam poder dividir o Islam são as diferenças – e em alguns momentos guerra declarada – entre sunitas e xi’itas. No entanto, quem acompanhou a invasão do Iraque por tropas ocidentais pôde observar que os últimos, há anos submetidos à cruel ditadura sunita de Saddam Hussein da qual foram libertados pelos invasores, também praticam terrorismo contra as tropas aliadas ([7]). Leve-se também em consideração a recente ação da Turquia sunita a favor de Teerã, na qual o Brasil entrou a reboque. Certamente a Turquia tem seus próprios interesses: mostrar ao mundo islâmico uma alternativa sunita à liderança xi’ita iraniana. Que disputem a liderança não indica uma divisão frente aos inimigos infiéis.

É ainda ibn Khaldun quem mostra a real e efetiva função da religião entre os homens:

‘(…) o propósito dos seres humanos não se limita ao bem estar no mundo. O mundo inteiro é insignificante e fútil. Termina na morte e aniquilação. O propósito (dos seres humanos) é sua religião, que os leva à felicidade no outro mundo. Portanto as leis religiosas têm como propósito indicar o curso a seguir em seu relacionamento com Deus e seus semelhantes. Isto também se aplica à autoridade real (…) (As leis religiosas) guiam-na pelo caminho da religião, de tal modo que tudo estará submetido às leis religiosas. (…) Tudo que é feito (pela autoridade real) motivado por razões políticas sem supervisão da lei religiosa é repreensível porque sua visão não segue a luz divina. (…) Portanto, é necessário guiar as massas de acordo com as leis religiosas em todas suas tarefas, tanto neste mundo como no outro. ‘ (p. 154-5, negritos meus).

Acredito que os últimos ocidentais que entenderam realmente o Islam foram os Cruzados. Isto porque também possuíam uma visão de mundo religiosa e unitária: o Cristianismo. Apesar das rivalidades intra-européias – que não eram poucas – os exércitos Cruzados eram forças cristãs, sob a benção e o comando Papal, imbuídas de uma visão unitária de mundo e, portanto, podendo compreender melhor seus adversários. Lutavam para libertar, salvar e manter em mãos Cristãs o Santo Sepulcro, restituindo o direito dos fiéis à peregrinação. Qual o interesse econômico de Jerusalém? Qual o interesse político, a não ser secundariamente no século passado? O que existe lá para ser sagrada para as três religiões monoteístas? Será coincidência que é o lugar do Templo dos Judeus, local da pregação, morte e crucificação de Jesus Cristo e onde se considera que estava Masjid Al Aqsa (a mesquita mais longínqua) de onde Maomé subiu aos céus (isra e mi’râj)? Ou há algo que transcende nossa compreensão? Transcendência esta perdida pela visão ocidental, mas não pelo Islam!

A unidade islâmica

A unidade islâmica se expressa através do Corão (al Qu’rān), da universalidade da shari’a, a Lei Islâmica baseada no próprio e nos haddithim, nos conceitos de ummah e jihad e nas táticas e estratégias denominadas hudna etaqiyya. Deve-se também levar em consideração as tariqas, comunidades esotéricas de crentes sufis centradas na autoridade de um sheik (velho, sábio) e que não conhecem fronteiras. Estes e outros conceitos serão estudados adiante.

A unidade perfeita entre política, religião e legislação pode ser resumida nas palavras do Mufti Al-Tayyeb, Presidente da Universidade Al Azhar:

“A civilização Ocidental é diferente da Oriental primeiramente por sua atitude em relação à religião, que é de inspiração divina. Para nós, no Oriente, a religião é sagrada e é o ápice da honra. No Ocidente – como eu vi quando passei uns tempos na França – a sociedade não está interessada na religião. Mesmo que haja pessoas religiosas, é uma sociedade que não se posiciona em relação à religião, é uma sociedade secular. (…) Se o homem ocidental deseja satisfazer seus desejos e lascívia ele não tem nenhuma restrição religiosa, seja em sexo, comida ou bebida. Já nós do Oriente estamos restritos pela religião em todas as formas de comportamento. (…) O homossexualismo é expressamente proibido (…) assim como as artes que degradam o ser humano, como o cinema e o teatro. (…) Respeitamos os costumes ocidentais nos seus territórios, mas nos nossos Países não aceitamos que os ocidentais disseminem idéias contrárias à religião, em nome de direitos humanos”.

Os textos sagrados do Islam
Corão (al
Qu’rān )
O livro que os diplomatas ocidentais deveriam ler e estudar profundamente. O al Qu’rān (recitação ou narrativa) é constituído de 114 suras, divididas em 6.236 ayat ou versículos. É considerada a palavra de Allah revelada ao Profeta Maomé durante o período de 22 anos, diretamente em Árabe e, rigorosamente falando, não pode ser traduzido para usos religiosos em nenhuma outra língua, sendo toda tradução considerada, pelos mais ortodoxos, uma blasfêmia e uma degradação da palavra direta e intraduzível de Allah.

Ultimamente têm sido relutantemente aceitas as traduções para o turco e para o farsi – idioma falado no Irã. O tema exaustivamente repetido e elaborado no texto é a completa submissão à vontade de Allah, que é um só e o único Deus. Engloba não apenas mandamentos religiosos, mas é uma legislação completa – constitucional, penal, civil e militar – não deixando nenhum lugar para a administração laica de qualquer aspecto da vida dos fiéis. É a vontade final e literal da palavra de Allah preservada exatamente desta maneira no Céu, para toda a Eternidade.

É a verdade e a única verdade, não se admitindo dissidências ou divergências, todas consideradas blasfêmias contra a vontade e a palavra de Allah, tal como transmitida ao Profeta. Com exceção dos xi’itas, não há clero pode-se considerar que cada fiel faz parte do clero. O controle é exercido pela teia de relações sociais que se entremeia na vida de todos, espionando, criticando, exigindo a fé (iman) na verdade da palavra de Allah e a prática correta dos ensinamentos. Nada, nada mesmo, escapa aos mandamentos – toda a vida está regulamentada nos mínimos aspectos. O que não consta no Corão, está nos Hadithim. Mammudah Abdalati ([8]) refere que desde os primeiros profetas, Abraão, Moisés e Jesus, a verdadeira religião é o Islam. Esta frase fica incompreensível sem a tradução da palavra islam. Para entender melhor deveríamos traduzir literalmente as palavras árabes. Se, ao invés de dizermos ‘o Islam é a única religião verdadeira’, fizermos a tradução, ficará: a submissão (a Deus) é a única verdadeira religião. E a afirmativa de Abdalati assume uma nova compreensão, pois a única submissão deve incluir o reconhecimento de Maomé como Único Mensageiro de Allah.

Sunnah e Haddhithim
Sunnah significa ‘caminho trilhado’, a coleção das tradições do Profeta, sua interpretação de algumas passagens de sua vida e testemunhos sobre os seus atos. É a segunda fonte da Lei Islâmica. Por ser mensageiro de Allah todos os seus atos e palavras devem ser seguidos literalmente, pois são considerados também a vontade de Allah. Um registro validado deste caminho constitui umHaddith. Cada Haddith encerra um ensinamento exemplar. Geralmente são relatos feitos pelos sahāba, os que conviveram com o Profeta. Existem vários tipos de haddith (corretos, bons, fracos ou falsos), os principais sendo os Haddith Qudsi(sagrados), as palavras de Allah repetidas por Maomé e guardadas por uma isnad,cadeia de transmissores com autenticidade comprovada (quando esta cadeia é citada o conteúdo textual chama-se matn). De acordo com as-Sayyid ash-Sharif al-Jurjani, os Haddith Qudsi diferem do Corão porque foram revelados em sonhos ou revelação direta e são expressados através das palavras de Maomé, enquanto no Corão é a palavra direta de Allah. A grande maioria dos crentes considera os haddhithim fontes essenciais para esclarecimento do Corão.

As bases corânicas para que os atos e palavras do Profeta sejam seguidos são, entre outras:

3:132

‘Obedeçam a Allah e a seu Mensageiro e contarão com minha misericórdia’

59:7

‘… Aceitai, pois, o que vos der o mensageiro, e abstende-vos de tudo quanto ele vos proíba’

4:80

…. Quem obedecer ao Mensageiro obedecerá a Allah’

Sunitas e xi’itas têm séries diferentes de haddithim, um bom apanhado pode ser visto aqui e uma explanação bem extensa pode ser encontrada aqui.

(A seguir: a visão islâmica do mundo e outros conceitos fundamentais).

Notas:

[1] Paz e Guerra entre as Nações (Ed. UnB)

[2] Talvez Olavo exagere aqui, pois os hinduístas também vêem a política como conseqüência de fatores religiosos. Os livros sagrados Rig Veda, Upanishads, Mahābhārata, Ramáyana, Bhagavad Gita, norteiam a totalidade da vida, inclusive a política e a diplomacia. Dos mais antigos, os quatro Vedas, o Rig Veda (entre 1700 e 1100 a.C.) é o que estabeleceu o sistema das quatro castas (os sem castas, intocáveis, achutas ou Dalits, surgiram depois), determinando todo o sistema social e político posterior. Nas guerras intestinas entre hinduístas e muçulmanos na Índia, os dois lados sabem muito bem que se trata de guerra entre crenças. A importância do xintoísmo no nacionalismo japonês e na crença na divindade do Imperador (considerado descendente direto da deusa do Sol, Amaterasu) deve também ser mencionado, embora no período de máximo nacionalismo, a era Meiji tenha havido uma ‘laicização’ do Xintoísmo, transformado em xintoísmo de Estado. No entanto, estas religiões não têm um plano estratégico de domínio mundial como o Islam.

[3] As citações de Abd-ar-Rahmân Abû Zaid bin Muhammad bin Al-Hasan bin Jabir ibn Khaldûn al-Hadramî (1332-1406) serve a dois propósitos: dar o crédito a este grande historiador tunisino de antiga família iemenita e prestar homenagem a Olavo de Carvalho através de quem conheci este autor. Há alguns anos Olavo fundou o Centro de Estudos Ibn Khaldun que teve efêmera duração, porém altamente gratificante para os que dele participaram. Claro está que não continuou por falta de financiamento, ainda não havia o Bolsa Escola. Foi certamente a melhor experiência intelectual de que já participei.

[4] Sacerdotes zoroastrianos, singular: môbhed.

[5] Isto não significa nenhum desprezo para com Aristóteles – a quem muito respeitava – ou outros predecessores.

[6] Deve-se notar que o conhecimento destes assuntos por parte de ibn Khaldun não era apenas derivado de estudos teóricos, mas da experiência prática: viveu em Al Andaluz e viajou muitas vezes por todo o norte da África e Oriente Médio. A pedido do Sultão Faraj, do Egito, encontrou-se com Tamerlão (Timur), o grande conquistador turco, com quem debateu em Damasco durante 35 dias. O império de Tamerlão abrangia a Ásia Central, os atuais territórios do Paquistão e Afeganistão, Pérsia, Mesopotâmia e parte do Cáucaso. É raro um historiador com a experiência prática de ibn Khaldun.

[7] Segundo o Aiatolá Murtaza Mutahhari, ‘All Muslims worship the One Almighty and believe in the Prophethood of the Holy Prophet (s). The Qur’an is the Book of all Muslims and Ka’abah is their “qiblah” (direction of prayer). They go to “hajj” pilgrimage with each other and perform the “hajj” rites and rituals like one another. They say the daily prayers and fast like each other. They establish families and engage in transactions like one another. They have similar ways of bringing up their children and burying their dead. Apart from minor affairs, they share similarities in all the aforementioned cases. Muslims also share one kind of world view, one common culture, and one grand, glorious, and long-standing civilization’. Ler o comentário completo aqui.

[8] Islam in Focus, American Trust Publications, sob os auspícios da Shari’ah Courts and Islamic Affairs, State of Qatar

Fonte, citado com Orgulho: Mídia Sem máscara!

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