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Desviado Não! Sou Subversívo!


Por Marcelo Lemos, editor

Sempre mantive uma relação de amor e guerra com o Evangelicalismo. Mas, provavelmente, para entenderem tal afirmação seja necessário conhecer um pouco da minha caminhada ‘evangélica’. Prometo que não vou me alongar demais.

Começem imaginando a vida de um garto cujos pais se converteram ao pentecostalismo quando este tinha cerca de 4 anos de idade. Depois de tal conversão, o garoto não mais pode assistir TV, jogar video-game, brincar de bola, peteca, bolinha de gude… Também não podia participar de festas da escola, ou na casa de amiguinhos. A irmã deste garoto, que viria nascer alguns anos depois, cresceu sem poder usar uma calça, um simples baton, ou cortar o cabelo.

Todas estas proibições, e muitas outras, eram religiosamente mantidas em nome de Deus, sob a oritentação direta do Espírito Santo, segundo diziam profetas e profetizas de nossa Igreja. O garoto chegou a ver muita coisa assustadora. Por exemplo, quando numa vigília uma profetiza entregou:

“ – Eis que o Espírito Santo me revela existir entre nós uma jovem que cortou a ponta de seus cabelos. Se esqueceu a jovem que seu corpo é templo do Espírito Santo? Se esqueceu a jovem que tais coisas são próprias das filhas de Jezabel? Você quer o perdão de Deus? O Pai de amor deseja te perdora, mas para isso você precisa vir aqui na frente do Altar e confessar o seu pecado!”.

Um misto de sentimentos invadia a Igreja em ocasiões assim, bem como o coração do garoto. Era um misto de medo e entusiasmo. A dubiedade se revelava nas reações dos presentes. Por toda a Igreja se podia ouvir gente glorificando a Deus por aquela revelação. Um e outro, aqui e ali, declamava: “É isso aí Jesus! Desce o chicote no pecado!”. E, em alguns semblates, se podia notar tremor e temor, provalvemente pela consciência de que era simplesmente impossível ser fiel a cartilha dos Legalistas.

Mas, naquele dia, ninguém ousava se manifestar, confessando o terrível pecado… Mas, isso era fácil de resolver.

“- Ouçam o que o Espírito acaba de me revelar – continua a profetiza: Se esta jovem não confessar agora mesmo o seu pecado, Deus vai fazer com que todo o seu cabelo caia no prazo de uma semana. Não adianta tentar se esconder, Deus vai mostrar a todos o teu pecado…”.

Uma, duas, três… quatro jovens se levantam e vão a frente, confessando o terrível pecado.

Foi questionando estas coisas que recebi o estigma de “desviado” entre meus coleginhas de Igreja e, provavelmente, entre os pais deles. Até os meus país me chamavam de desviado. Com efeito, eu cheguei a apanhar uma vez quando, ao chegar em casa, disse que o pastor era um hipocrita. Anos mais tarde, quando decidi fazer seminário – o que era proíbido em nossa Congregação! – meu convívio com meu pai quase desabou, a ponto de eu ir morar sozinho por um ano. Hoje, meu pai se arrepende do passado; quase choramos juntos, ao redor da mesa, no dia que ele disse: “Por causa daquela cegueira, quase perdi meus filhos!”.

Atualmente, creio que meu pai é o único e maior fã que eu já tive, ou terei. Tem dia que penso estar sonhado, quando ao me apresentar a algum amigo, ele diz: “Este é meu filho, lembra-se dele? Pois é, virou pastor. O negócio dele é Bíblia, Bíblia e Bíblia!”. O poder o Evangelho é maravilhoso, e eu descobri isso durante as noites mais escuras de minha alma. O Legalismo quase dizimou minha fé, e a minha família; mas, pouco a pouco, o poder do Evangelho está restaurando nosso Castelo.

O Legalismo, entretanto, não é inimigo fácil de se combater, ou vencer. É uma praga, um câncer, e tem o poder de se espalhar como uma lepra. Eu vejo Legalismo todos os dias e, quando me assuntos, me pego sendo eu mesmo seu promotor. Quão miserável somos; quão inimigos da Graça!

Ah, a Graça! Esta pequena palavra transformou a minha vida. Acreditem, caros amigos, eu não sabia nada sobre Graça, mesmo tendo passado quase toda a minha infância dentro de um templo evangélico. Isso mesmo, pois, para mim, havia sido dito que ser “cheio da graça” era simplesmente o mesmo que possuir vários dons, ou falar “línguas estranhas”, ou então “pregar poderosamente” (ie, aos berros!), ou ficar desmaiado de “poder” no Monte!

Graça que liberta? Graça que Salva de nossos pecados? Graça que redimte, expia e glorifica? Graça que significa puro e simples “favor imerecido”? Não senhores, desta Graça eu jamais havia ouvido falar.

E, justamente porque a Graça me é tema tão valioso e caro, que não desisto nunca de lutar por minha liberdade cristã. Alguns dizem que, ás vezes, estou sendo apenas rancoroso, devido o passado. Talvez possa ser isso; todavia, quem há de condenar um escravo feito livre que se recusa a voltar para Senzala? Estejam certos amigos, vale apena se agarrar a Carta de Alforria que nos foi dada pela Cruz do Cristo Crucificado.

Quando os Legalistas judaizantes tentaram impor suas humanas tradições sobre o Ministério do Apóstolo Paulo, ele rapidamente identificou tal tentativa como sendo uma armadilha para “espiar a nossa liberdade, a qual temos em Cristo Jesus, e nos porem em servidão” (Galátas 2.4). Resoluto, e certo de sua liberdade na Graça, o apóstolo diz: “Aos quais nem ainda por uma hora cedemos com sujeição, para que a verdade do evangelho permanecesse entre vós” (v. 5).

Nem durante mísseros sessenta minutos somos obrigados a nos sujeitarmos aos ditames dos Fariseus, os de ontem, ou os de hoje. Foi estudando a lutar incansável de Paulo contra os judaizantes de seus dias que aprendi o poder subversívo do Evangelho, e com ele aprendi com quais armas devo lutar contra aqueles que “espiam” nossa liberdade.

Estou certo de que alguns não vão gostar deste termo, “subversivo”. Estou ciente de que um apologista virtual até anda usando o termo para desmerecer alguns pontos teológicos que defendemos. Na verade, a acusação é dirigida especificamente contra a pessoa e o Ministério do Bispo Hermes, da Igreja Reina; mas, nosso nome também é citado entre os réus – o que pra nós é uma honra imensa! Aliás, devo ao Bispo Hermes o meu recente uso do termo “subversívo” (já, já explico mais…).

Pasmem os senhores que, dito apologista, visando atacar a pessoa e a pregação do Bispo Hermes, escreveu:

“Isso me fez atentar para o gritante detalhe de que Hermeneu tem uma estranha fixação pelos termos “subversivo”, “subversão”… O termo subversão está relacionado a um transtorno, UMA REVOLTA; PRINCIPALMENTE NO SENTIDO MORAL.. subversão se refere a algo mais clandestino, como ERODIR AS BASES DA FÉ NO STATUS QUO ou CRIAR CONFLITOS ENTRE PESSOAS”. (*)

Disto isto, visando manchar ainda mais a reputação de nosso irmão em Cristo, ele sentencia:

“Diante disso podemos afirmar que a mensagem de Cristo nunca foi subversiva”. (*)

Digno de nota que o apologista supra citado reconhece que o termo “subversão” não possui um sentido fixo; de modo que nem sempre um subversívo apregoa – como ele covardemente insinua – uma corrosão da moralidade. Entres as definições para o termo se encaixa também a que diz, segundo ele mesmo escreve, a erosão das “bases da fé no status quo”. Uma vez que “status quo”, inquestionavelmente, siginifca “o estado atual das coisas”, então, apenas um lunático, ou ignorante teológico, poderia alegar, como faz o referido apologista, que “a mensagem de Cristo nunca foi subversiva”.

Havia um “estado atual de coisas” quando o Cristo veio ao mundo, e ele prontamente o combateu, e inaugurou a verdadeira hermenêutica da vida, sob o prisma o Espírito, o prisma da Graça. Ou, alegará alguém, que Cristo tenha se feito cumplice do “estatus quo” estabelecido pela religião dos Fariseus? A resposta me parece por demais óbvia e irrefutável, amigos:

“Ele, porém, respondendo, disse-lhes: Por que transgredis vós, também, o mandamento de Deus pela vossa tradição? Porque Deus ordenou, dizendo: Honra a teu pai e a tua mãe; e: Quem maldisser ao pai ou à mãe, certamente morrerá. Mas vós dizeis: Qualquer que disser ao pai ou à mãe: É oferta ao Senhor o que poderias aproveitar de mim; esse não precisa honrar nem a seu pai nem a sua mãe, e assim invalidastes, pela vossa tradição, o mandamento de Deus” (Mateus 15.3-6).

A mensagem da Graça é subversíva, pois derruba os alicerces das Tradições Humanas, as quais colocam percalços no Caminho entre Deus e o homem. Por isso, como já vimos na Carta aos Gálatas, o apóstolo Paulo também se fez subversívo contra as tradições dos cristãos judaizantes. O estudante se lembrará que aqueles homens imaginavam que ter fé em Cristo não era suficiente, sendo necessário ao novo covertido também aceitar as Leis Cerimoniais da Antiga Aliança. É sobre eles que Paulo escreveu: “Aos quais nem ainda por uma hora cedemos com sujeição, para que a verdade do evangelho permanecesse entre vós” (Galátas 2.5).

Também os cristãos primitivos viveram a subversão do Evangelho. Enganam-se aqueles que apresentam um quadro simplista a respeito da cruel perseguição que eles sofreram por parte da maioria dos Imperadores Romanos. Ensina-se, em muitos lugares, que teriam nossos irmãos sido mortos a espada, fogo e por feras, simplesmente por acreditarem em Jesus. Sim, eles morreram por causa de Jesus, mas existe algo que a Igreja de nossos dias deveria se lembrar: os Imperadores odiavam os cristãos pois eles declaravam: “Cristo é o Príncipe dos Reis da Terra” ( Apocalipse 1.5). Esta era a mais grave acusação contra os cristãos primitivos: “Estes que têm alvoroçado o mundo, chegaram também aqui; os quais Jasom recolheu; e todos estes procedem contra os decretos de César, dizendo que há outro rei, Jesus” (Atos 17. 6,7).

Estes que têm alvoroçado o mundo, chegaram também aqui… Os cristãos de hoje se esconder por trás de uma máscara de piedade e santificação. Dizem nada querer com este mundo, e alegam que tudo o que vemos pertence aos domínios de Satanás. Reclamam de leis anti-cristãs, mas nada fazem para promover o Reino de Cristo. Os cristãos primitivos eram diferentes. Eram bons cidadãos, e respeitaveis; mas lutavam com todas as forças para promover o Reino de Deus, e conseguiram transformar o mundo de seu tempo. Como dizem alguns historiadores, o cristianismo destruiu Roma; o que se deu em cumprimento das visões de Daniel, o profeta. Ora, meus caros, a política de Roma era pela tolerância – aceitava-se toda e qualquer religião, desde que completamente sujeitas ao Imperador. Por este motivo nossos irmãos foram perseguidos e mortos.

Mas, me veio de repente, um estranho pensamento. Será que o apologista que nos ataca, por causa do uso do termo “subversívo”, é um cristão Católico Romano? Parece que não, pois apesar dele esconder sua verdadeira identidade por trás do anominato, o teor de seus escritos denunciam alguém de orientação evangelical. Isso soa estranho, não acham? Pois, se ele não é também um subversívo, não deveria se alinhar as fileiras da Sé Romana? Ou, mais provavel, ignora o nome escritor polemista que sua identidade ‘anti-católica’, é por si só, ‘subversão’?

Sim, pois nas origens do pensamento Reformado estava aquela constatação básica de que havia excessiva corrupção na religiosidade medieval, portanto, sendo necessária uma devida Reforma da Igreja. Foi uma idéia tão subversia, que abalou intensamente o “estato atual das coisas” naqueles dias. Novamente a espada foi desembanhada contra a Igreja; desta vez, cristãos combatendo cristãos, pelo simples fato de que toda vez que alguém se apega a Graça, o “status quo” de nossas tradições humanas será irremediavelmente abalado!

Não por menos um dos lemas da Reforma ser “Ecclesia reformata et semper reformanda est”. A Igreja sempre precisa se reformar, pois sempre lhe será necessário analisar-se no Espelho da Palavra de Deus, a fim de ver em que temos errado, e estabelecido nós mesmos, um ‘status quo’ acima da simplicidade do Evangelho…

Com Hermes, explico-me, encontrei um termo que cai muito bem neste poder irresistível da Graça: subserviso. Não subversivo como que se rebelasse contra a Moral da Lei de Deus, ou contra a religião Cristã, conforme revelada nas Escrituras, e definida pelos credos Históricos. Nada disso. É subversivo no mesmo sentido que foi para Cristo e Paulo, para as Sete Igrejas da Ásia e para nossos pais Reformadores. Subversão contra o ‘estado atual de coisas’, estabelecido por homens que fazem de suas próprias tradições substitutos mancos para a Graça que… liberta!

Daí minha empolgação com o termo que copiei das reflexões do Bispo Hermes. Agora, quando este ou aquele Fariseu me vir apontar o dedo dizendo: “Desviado!”, eu simplesmente posso responder: “Desviado coisa nenhuma; sou servo e embaixador da Liberdade de Cristo; sou subversívo!”.

Há, porventura, entre meus leitores, alguém que precisa de Carta de Alforria?

Paz e bem!

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